30 outubro 2010

julgava que não me lembrava como tinha começado a ler o josé luís peixoto. julgava que me tinha cruzado por acaso. mas entretanto lembrei-me que foi em outubro de '04 que me ofereceram "antídoto".
e é por estas e tantas outras que gosto tanto.

in jornal de letras. junho'010.

ouve. há dias em que questiono os gestos mais simples. respirar, o que é? nesses dias, as metáforas fazem mais sentido do que beber um copo de água. o que é um copo de água? um copo é feito de vidro e eu não sei de onde vem o vidro, transparente e frágil, duro, excepto perante o chão, excepto perante uma pedra(...).
em dias, como hoje, tudo isso é absurdo, falta-lhe sentido, e as metáforas têm muito mais lógica, crescem do ar, ateiam-se num mudo invisível. se procuro razões, acredito que somos mais importantes do que a nossa pele. somos mais importantes do que os nossos pulmões.

(...)

por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. existimos no mesmo sítio sem esforço. aquilo que somos mistura-se. os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos os reflectem. tu és aquilo que sei sobre a ternura. tu és tudo aquilo que sei. mesmo quando não estava lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. e agora estamos sempre juntos. o meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente(...). talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. eu e tu declaramos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas.

existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas(...) existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. e existem momentos despercebidos.
dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.

questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma das palavras.
mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? eu sei que entendes o que não sei dizer. repito: eu sei que entendes o que não sei dizer.

escuta, ouve.

amor.

amor.


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